O Ateneu (Raul Pompeia), Cap. 05
(...)
Soavam-me ainda aos ouvidos as prédicas de ascetismo do Barreto.
Para ele o mal era fêmea.
O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um rabo ao cóccix e criava o Satanás bilontra, imoral e alegre.
A cauda do demônio do Barreto era de rendas.
Na Rua do Ouvidor, faria o Satanás — fanfreluche.
Uma coisa horrível, com dois olhos, destinados à perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre, que, por sinal, é batina, não é saia. O mais não passava de pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra.
Cuidado com Satanás sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dois seios, uma pantomima do inferno, faceira e traidora, graciosa e comburente, donde por descuido e por acaso vai-se desprendendo a humanidade, como as cobrinhas pirotécnicas de Faraó. O menor descuido, desgraça eterna!
Contou-me que o porteiro do seminário em que estivera, para não ser despedido, fora intimado a separar-se da própria irmã.
Deus, para vir ao mundo, tinha severamente elaborado o mistério excepcional de uma virgindade sem mancha.
E, se não fossem as profecias, que não podiam ficar comprometidas, o veículo a Conceição, por amor da insexual pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda mais respeitável pela calva.
A teologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar quanta imagem de sorriso viesse pousar-me à idéia.
Virando a página dos fervores, a teoria ficou-me de resto, do Satanás feminino.
(...)
terça-feira, 9 de abril de 2019
quinta-feira, 28 de março de 2019
Casa antiga - (Letícia Araujo)
https://poemas-de-um-espirito.blogspot.com/2019/04/casa-antiga-leticia-araujo.html
Volto à casa antiga
e meus dedos encontram a parede fria.
Volto às paisagens de minha infância distante,
e o passado renasce.
Lembro então que eu tinha, para iluminar o meu ser,
o claro olhar de teu semblante,
teu rosto mais sereno, mais feliz,
tuas mãos que me levavam a passear
pelas calçadas que um futuro insípido não apagou.
Ando de novo pelas ruas do meu passado
e volto pelo caminho de tua alma,
para ouvir os sons de vida ao meu redor
que naquele tempo eram como o eco de tua voz.
E foram as asas de teu aconchego
que me fizeram não esperar o porvir
pensando que nada nem ninguém
poderia roubar de mim a infância,
que eu estaria no teu colo para sempre,
e nele apoiaria minha vida, o meu ser.
Mas descobri ser impossível tal sonho,
e outros sonhos tomaram teu lugar.
Cresci e segui meu caminho;
tuas mãos, teu rosto, teu olhar ficaram distantes,
nessas ruas ensolaradas,
e andei muito longe para hoje retornar
à procura de teus olhos, tua face;
quero descansar novamente em teus braços
e fazer de conta que não cresci;
falar de paisagens longínquas
que encontrei em outros mundos
e sentir em tuas mãos o calor
que as paredes frias do antigo lar não possuem.
Parar por momentos no teu regaço
sem esperar o futuro, sem olhar adiante...
...apenas parar !
Olhar pela janela de tua alma
e nessa infinitude me perder.
Você foi minha primeira estrada.
Volto a seguir os caminhos antigos.
Tua luz ilumina minha senda ainda hoje,
como iluminava minhas veredas
o sol de minha infância distante.
quarta-feira, 20 de março de 2019
A Paixão - Letícia Araujo
A paixão é feita de caos;
nela, o ciúme é regra
e o desejo
- inesgotável -
sempre tem pressa.
Tudo cega
e nada se vê ao redor;
ela ocupa o tempo por inteiro:
Não há passado,
não há futuro.
O presente, onipresente, é o único chão;
e o chão que pisamos é terra de ninguém.
Mas o fim está a um passo:
ela explode para terminar,
ou arrefece para tornar-se amor.
Letícia Araujo
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
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